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A sete palmos da realidade

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3.06.2009 por Notícias

Marcelo Pires

Dia desses, participei de um debate sobre o futuro da propaganda.

Qual publicitário já não participou de um debate assim? E qual publicitário, em um debate assim, não precisou discorrer sobre a internet, o youtube, a mídia viral e a interatividade.

No meio desse assunto todo, com os debatedores ali, respondendo a seu bel-prazer questões amplas demais, me dei conta que, de novo, ao falarmos de futuro, estávamos todos a pensar em inovações tecnológicas.

Ou, pelo menos, falando que tipo de mudança vem acontecendo no comportamento das pessoas devido a avanços tecnológicos.

Comentei isso ao vivo no debate e sugeri que a indústria da publicidade deveria urgentemente se alinhar aos avanços que ocorreram não nos meios de comunicação, mas na fonte desta comunicação: as pessoas em si.

O papo ficou meio vago, meio pernóstico, mas, por sorte, me ocorreu uma boa forma de exemplificar o que eu estava dizendo.

Não sei se você já assistiu a algum capítulo de A sete palmos (Six feet under). No primeiro capítulo dessa já nem tão nova série de TV conhecemos uma família americana contemporânea: pai, mãe, três filhos adultos.

A família administra um pequeno negócio: uma funerária. Mas o enterro no primeiro capítulo não é de nenhum cliente; o pai morre em um acidente de carro. A cena é incrível: um ônibus bate no carro funerário e o arrasta por meio quarteirão.

Com a morte do pai, que retornará a todos os capítulos da série em forma de um irreverente espectro (roqueiro, fumante, mulherengo), vamos entrando em contato com os outros personagens. A filha mais jovem, uma ruivinha graciosa, ao saber da morte do pai, tinha acabado de tomar um ácido. O filho mais velho, ao saber da morte do pai, está transando no banheiro do aeroporto com uma moça que acabou de conhecer no avião.

A viúva, ao saber da morte do marido, sofre uma crise, não sabendo lidar com a culpa de, nos últimos anos, ter um assíduo amante (os dois costumavam fazer camping). E o filho do meio, homossexual, católico fervoroso, segura a onda da notícia da morte do seu pai nos braços do seu namorado, um policial afro-americano, também supercristão.

Esqueci de contar: este primeiro capítulo acontece na idílica época do Natal.

Por que raios eu lembrei de tudo isso em pleno debate sobre o futuro da propaganda?

A sete palmos passa na TV. Não é peça de teatro. E a primeira, a segunda, a terceira, enfim, as várias temporadas da série, sucesso de público e crítica, estão faz tempo à venda em DVD.

A sete palmos deixa muito explícito que as pessoas mudaram — e já não são tão típicas como uns e outros fazem de conta que elas são. Quando a programação demonstra tal vitalidade, o intervalo comercial tem de correr atrás, pra não correr o risco de ser anacrônico.

Eu sei que nem toda família tem uma funerária, viaja de avião, toma drogas ou é supercristã. Mas, hoje em dia, muitos filhos namoram policiais; muita mãe namora o vizinho; muita moça de família faz sexo casual; e quase todo mundo adora séries de TV.

Não estou, portanto, fazendo apologia de drogas, de sexo em banheiros públicos ou de investimentos no setor funerário. Só estou reparando que as pessoas estão bem mais ousadas do que o intervalo comercial. As pessoas estão mais maduras do que o intervalo comercial. A irreverência não têm idade, credo ou condição social. O novo está na rua. E nas séries de TV.

Conclusão: apesar dos pesares, vale a pena participar de debates sobre propaganda.

Outra conclusão:  o humor da programação está mais elaborado do que a maioria dos comerciais de TV – e até mesmo do que a maioria dos tão cultuados virais da internet.

Conclusão final: para garantir o futuro da propaganda a gente tem que, no mínimo, encostar no presente.

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