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Abraços, Nei Lisboa.

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23.02.2010 por Notícias

Por Marcelo Pires

Nei Lisboa deu entrevista para o Segundo Caderno de ZH. Ótima entrevista. Falou sobre sua formação, seu trabalho, sua filha, Maria Clara, falou sobre rock, sobre MPB, sobre seu processo criativo.

Como estava fazendo uma retrospectiva, um balanço da sua carreira, declarou: “A música da minha terra, que eu ouvia de criança, o Teixeirinha, por exemplo, nunca me seduziu a ponto de eu profissionalmente produzir alguma coisa com ela. Tudo em torno dela me parece muito ruim, estética, ideológica e musicalmente. Isso inclui, sobretudo o que o tradicionalismo tem feito com a música do Rio Grande do Sul nas últimas décadas. Eu comecei a me lançar na virada dos anos 1970 para os 1980, quando foi também o boom dos festivais, do tradicionalismo. E foi também, no começo dos 1980, que o rock brasileiro começou a mandar na cena. Enfim, que identidade musical a gente tem aqui em Porto Alegre? “Há uma dificuldade nessa matériaâ€. E concluiu: “A música gaúcha se torna intragável para qualquer pessoa mais esclarecida. Não é só o fato de não me representar. Eles foram absurdamente reacionários, a música começou a ser tutelada em termos do que vestir e não vestir em cima do palco, um absurdo. Qualquer adolescente urbano mediamente esclarecido, hoje em dia, se coloca a quilômetros de distância dissoâ€.

Nei não falou isso do nada, estava explicando a respeito da sua sensibilidade, do seu jeito de pensar, compondo o seu perfil, finalidade da matéria. Mas, neste verão chuvoso, também choveram protestos vindos dos representantes dos nossos nativistas. O Presidente do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore, Manoelito Savares, declarou: “Ele (Nei) foi deselegante. Não acho que precise ser trucidado, mas acho que perdeu pontos com quem admira outros estilos de músicaâ€.

Fiquei chocado com o verbo: trucidado. Trucidar quer dizer matar com crueldade, com selvageria, causar o fim de, exterminar, destruir, esmagar. Nada mais precisaria ser dito. Ao dizer que Nei não precisa ser trucidado, apesar desta benevolência momentânea, o Presidente do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore revelou o tipo de tratamento que nossos nativistas costumam adotar com quem discorda das suas opiniões.

Devido à reação dos tradicionalistas, Nei Lisboa escreveu um adendo as suas declarações, um não aos “patrões da culturaâ€. Nei escreveu: “Não estou subestimando a inteligência de ninguém ao dizer que a música gaúcha torna-se intragável para um adolescente esclarecido. Estou é afirmando que as gerações do século 21 não irão compactuar com os preconceitos, os estereótipos e o regramento artístico do movimento tradicionalista. Alguém (mais esclarecido) dirá que essa é uma generalização equivocada, já que nem toda a música regional se submete ao perfil do MTG, e que ela abriga outros movimentos, como o nativismo, a tchê music, a projeção folclórica, etc. Está certo. Mas, cá entre nós, essas diferenças não são sempre cristalinas para o público. E se há de fato aqueles que refugam o modelo oficialista e conservador, pouco se escuta sua voz. Onde está essa contestação? No espaço mais visível da mídia, o que predomina é uma nebulosa monotemática, sempre pilchada a rigor… Aqueles poucos que se apressaram em amesquinhar o tema são os interessados de sempre em insuflar a defesa da “valorosa honra do Rio Grandeâ€.

Contei tudo isso por um motivo muito simples. Já que Nei anda sendo, não trucidado (ufa!), mas altamente patrulhado, quero fazer o contrário, quero provar que nem só de brigadas ideológicas vivem o nosso Rio Grande. E reafirmo aqui minha admiração pelo seu trabalho e pela agudez das suas palavras, tanto nas letras das canções quanto nas respostas do perfil no Segundo Caderno.

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