Notícias

Dica de blog

Sem categoria

1.02.2010 por Notícias

Marcelo Pires

Gente, li um ótimo livro: “De cuba com carinhoâ€, de Yoani Sanchez, da Editora Contexto. A autora é “blogueiraâ€, mora em Cuba, é acessada no mundo inteiro e foi eleita pela revista Time, uma das mulheres mais influentes do mundo. Yoani ficou tão importante porque morando na castrante ilha dos castros recusou-se a ficar ilhada: enfrenta todo o tipo de problema para manter seu blog no ar e, assim, informar ao mundo todo o cotidiano de uma mulher comum. Além disso, Yoani escreve bem pra caramba. E a gente fica com vergonha de usar camisetas estampadas com Che Guevara depois de entrar em contato com esta doce mulher, mãe do adolescente Téo.

Segue discurso que a Yoani publicou no blog depois que ganhou o prêmio “Ortega y Gasset†de jornalismo digital.

“Me apraz reconstruir a “cena do crime†que deu lugar a Geração Y. Voltar a viver esses dias de abril, faz já um ano, em que cansada de não ver refletida minha realidade na imprensa, na televisão ou rádio, decidi começar a contar-la em um Blog. Não sabia que este ato de extrair a “informação pelas minhas mãos†era algo que já tinha um nome: jornalismo cidadão.

Para começar, desenhei uma página simples e lhe ornei com essa exótica letra com que meus pais me inscreveram no grupo dos Yohandry, Yanileydis, Yuniesky e Yordanka. A semelhança onomástica, entre eles e eu, reforçou-se com algumas vivencias comuns donde sobressaiam as escolas no campo, os bonequinhos russos, as saídas ilegais e a frustração. Os posts foram saindo cotidianamente, marcadas por essas erupções emocionais que os jornais não publicariam jamais. Depois, chegaram os comentaristas. Em seus textos eles acreditavam ser eu a Juana d`Arc do cyberespaço, ou uma agente da CIA ou da Seguridad del Estado. Saboreei então o desconhecido sabor da liberdade de expressão, a vertigem de que todos pudessem dizer o que pensavam.

Geração Y é um exorcismo individual, que a modo de terapia, receitei a mim mesmo em princípios do ano passado. Cheguei a esta “cura cavalar†depois de comprovar que a Internet era o único resquício por onde uma opinião alternativa, crítica e incômoda podia pular o cerco da censura em Cuba. Ao redor de mim, os exemplos de defenestrados, separados, banidos e encarcerados, advertiam-me que opinar diferente seguia sendo penalizado. Porem os inquisidores envelhecem, seus métodos não se desenvolvem na mesma velocidade que a tecnologia. Assim é que alí estava a Internet, até agora sem leis que impedissem colocar-se opiniões nela; como uma zona não regulada: uma fenda que se abria no muro.

Não faltaram os que me chamaram à paz do silencio, à tranquila mansidão da apatia. Alertaram-me sobre esta armação legal e policial que maneja conceitos como “propaganda inimigaâ€, “quintacolunismoâ€, “assalariados do Império†ou - nos casos mais leves - mero “diversionismo ideológicoâ€. Recomendaram-me que fugisse, indicaram-me a emigração como o caminho mais curto à catarse; todavia, ao invés de comprar um motor de chevrolet para cruzar o estreito da Flórida, tornei-me uma balseira virtual. Escapei, porem não de meu país, senão do medo, da paranóia e do conformismo.

Terminei por chegar, com esta balsa-blog, a um território prazeroso e doloroso a sua vez, onde a responsibilidade cívica já nao me deixa voltar atrás. Agora tenho duas vidas, uma real, parcelada e fiscalizada, onde escuto ordens, lemas e chamados à batalha; outra, virtual, enorme, livre, onde comecei a sentir-me cidadãâ€.

Deixe um comentário